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*por Mariana Lemos

São 20h. No caminho de volta para casa me deparo com um morador de rua falando sozinho. Ele parece brigar com seu amigo imaginário. Está negando todas as constatações que alguém lhe faz. Está brigando com ninguém. O invisível lhe incomoda. Penso que ele está maluco. Bem, maluco? Me lembro que amigos imaginários são figuras comuns para crianças. Mas, não para adultos.
Não sou médica, mas meu palpite é que este mendigo tem uma doença: a tal da esquizofrenia. Ele está tão perto e ao mesmo tempo tão distante de mim. Parece habitar outro mundo. O curioso é que muitos mendigos possuem esquizofrenia. Mas isso não é acaso.
Como explica este artigo de professores da USP, pessoas com esquizofrenia ficam mais despreparadas para o convívio social e por isso as chances de se desconectarem com seus familiares e demais elos é maior, ou seja, ficam mais expostos a saírem de suas casas e a morarem nas ruas.
A esquizofrenia é uma doença crônica que provoca dificuldade na distinção entre o real e o imaginário. Este transtorno não tem cura, apenas controle, e interfere severamente no pensamento lógico dos indivíduos, atingindo seu comportamento e impactando suas emoções. Pois é, complexo. Na prática, a pessoa tem alucinações e em algum ponto vive experiências completamente imaginárias, que se confundem com sua realidade. Os sintomas se desenvolvem em formatos diversos, não necessariamente em personificações de amigos/inimigos, mas em forma de fantasias.
O pesquisador da IBM, Guilhermo Cecchi, liderou um projeto junto da Universidade de Columbia e do Instituto Psiquiátrico de Nova York para ajudar médicos a diagnosticarem pacientes jovens que podem desenvolver esquizofrenia no futuro. As instituições criaram um sistema que identificou incoerência semântica e mudanças severas no estado mental de alguns entrevistados. Estes são apenas alguns dos indícios de tendência a esquizofrenia.  De acordo com o estudo, cerca de 1% da população entre 14 e 27 anos já vivenciou um episódio psicótico e pode desencadear o transtorno.
A metodologia do sistema de diagnóstico está baseada em uma entrevista que é sempre conduzida por médicos. Quem está sujeito a desenvolver o transtorno apresenta um rompimento brusco de sentido entre frases durante esta entrevista.  A máquina ajuda os médicos a identificarem esses rompimentos e esta nova técnica teve melhor desempenho que gravações de atividade cerebral, por exemplo, usadas até então no diagnóstico da doença.
Não sou nenhuma especialista no tema, longe disso, mas me soou estranho que um sistema fosse capaz de diagnosticar uma doença tão complexa. Fui entender melhor o assunto e descobri que, como sempre, o software serve para ajudar os médicos a perceberem padrões da doença. Padrões estabelecidos por eles mesmos, que podem ter passados despercebidos durante a entrevista. O sistema então acaba sendo uma ferramenta que amplia a capacidade de diagnóstico do médico, o ajudando a ser mais preciso. Ou seja, quem dá o diagnóstico é o médico e nunca uma máquina, porque ela é apenas uma ferramenta.
A boa notícia é que este sistema pode ajudar a previnir o desenvolvimento extremo dos sintomas desta psicose. Isso porque quando a tendência de um paciente desenvolver a doença é diagnosticada precocemente, a chance de controlar e evitar possíveis sintomas aumenta. Quem sabe num futuro próximo mais pessoas consigam tratar a esquizofrenia.
**Para quem quiser se aprofundar no tema, aqui está um artigo + vídeo-entrevista (ambos em inglês) do líder do projeto na IBM. Também vale conhecer a história do grande matemático John Nash, que foi retratada no filme “Uma mente brilhante”.

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